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Domingo, 28.08.22

A Desistência ou Demissão Silenciosa

      Traduzido do inglês “Quiet Quitting”, a denominada Desistência ou Demissão Silenciosa é o novo aspeto laboral que está a espantar os patrões.

      O estado de espírito e a forma como muitos trabalhadores atuais vêm encarando o trabalho, tal como vêm fazendo cada vez mais os Oficiais de Justiça, já tem nome para padronizar o novo fenómeno laboral.

      A Demissão Silenciosa significa abandonar o empenho constante no trabalho e fazer o mínimo que é exigido.

      Perante a atual falta de perspetivas futuras, perante o cansaço de tantas lutas laborais e sindicais, sistematicamente ignoradas pelas entidades patronais, bem como o desprezo da sua força de trabalho pelos governos, os trabalhadores, sentindo não ter futuro na sua carreira, silenciosamente desistem de qualquer empenho extraordinário no trabalho e, sem ambições, fazem o mínimo necessário à manutenção do posto de trabalho.

      Chegar a casa tarde e cansado, depois de ter ficado além do seu horário e porque também começou o dia mais cedo do que era devido, continuar algum trabalho e casa, mesmo nos fins de semana… Tudo isto para quê?

      Esta questão está a ser destacada em algumas redes sociais e mesmo no “TikTok”, fazendo-nos repensar a nossa relação com o trabalho.

      Há cada vez mais pessoas a recusar a obsessão com a produtividade e a abraçar a “Demissão Silenciosa“.

      Agora, em vez de trabalharem em excesso, saem do emprego à hora estipulada no contrato. Em vez de responderem a mensagens dos patrões fora do local de trabalho, simplesmente desligam as notificações e não vão ao e-mail até entrarem no próximo turno. É assim a vida destes “demissionários fantasma”, que se limitam a fazer o trabalho que lhes está atribuído sem nenhum esforço adicional.

      Maria Kordowicz, professora de comportamento organizacional na Universidade de Nottingham, considera que esta tendência é a consequência natural do efeito que a pandemia teve nas nossas vidas, com a normalização do teletrabalho a dar uma maior sensação de liberdade aos funcionários.

      “A busca por um significado tornou-se muito mais óbvia. A pandemia lembrou-nos da nossa mortalidade e fez-nos pensar: “O que é que o trabalho deve significar para mim? Como é que posso ter um papel mais alinhado com os meus valores?”, explica a especialista ao The Guardian.

      O fenómeno da Demissão Silenciosa não é a única revolução que a pandemia trouxe ao mercado laboral. A Grande Demissão, por exemplo, varreu vários países e causou uma enorme escassez de mão-de-obra.

      A tendência “I no longer dream of labor” (“Já não sonho com o trabalho”) também se tornou viral nas redes sociais, como muitos utilizadores, maioritariamente jovens, a partilharem que simplesmente não têm um emprego de sonho.

      Na China, o fenómeno do “tang ping” tem raízes semelhantes, com os jovens chineses a rejeitar a cultura do consumismo e do trabalho excessivo para “ficarem deitados“. A moda está a preocupar o Governo chinês, que teme que haja uma quebra na produtividade e um impacto na economia, tanto que a “hashtag” até já foi banida nas redes sociais e vários grupos de celebração do “tang ping” foram apagados.

      Natalie Ormond sentiu os ventos de mudança trazidos pela pandemia. “Deixei a minha carreira de 14 anos como assistente social em setembro. Não tinha a ambição para subir na carreira e senti que estava a divagar, não estava a fazer o mínimo, estava só a fazer o meu trabalho e não me esforçava mais”, revela.

      De demissionária silenciosa, Natalie passou a demissionária a sério. “No fim, senti que estava desligada mentalmente e senti alguma culpa”, explica. Desde então, demitiu-se para se dedicar totalmente ao seu próprio negócio.

      A professora Maggie Perkins revela à Time que decidiu demitir-se silenciosamente quase cinco anos depois de ter assumido o cargo. “Não importa o quanto eu me dedico ao meu trabalho, não há um sistema de crescimento ou um incentivo ao reconhecimento. Se eu não me demitisse silenciosamente, sofreria “burn out”, diz.

DeitadaEscadas.jpg

      Se para alguns a demissão silenciosa é apenas uma forma para os funcionários se empoderarem e imporem fronteiras que garantam um equilíbrio saudável entre o trabalho e a vida pessoal, há quem questione o objetivo da tendência e as interpretações do seu significado variam.

      “A demissão silenciosa parece-me muito passivo-agressiva. Se alguém sofre de “burn out”, deve haver uma conversa mútua e honesta sobre isso. Só dizer: “vou fazer o mínimo absoluto porque tenho esse direito” não ajuda ninguém. Não há nada mais triste do que desperdiçar toda a vida sem se gostar ou sem se estar empenhado no trabalho que fazemos”, defende o “coach” profissional Matt Spielman.

      Também há quem considere o conceito confuso. “Quando li sobre a demissão silenciosa pela primeira vez, achei ridículo”, começa a especialista em recursos humanos Nikki Miles, que acha que a ideia implica que há pessoas a trabalhar mais do que aquilo que a sua função exige.

      “Isto significa que a expectativa é que se devemos fazer mais do que aquilo para que somos pagos e que isso vai resultar para nós. Isso não faz sentido para mim. Fazemos o trabalho pelo qual somos pagos e fazer mais do que isso não deve ser uma exigência”, acrescenta ao The New York Times.

      Já Gabrielle Judge, que trabalha numa empresa tecnológica, questiona o impacto que estes demissionários silenciosos têm no resto da equipa. “Há pessoas que entendem isto como um afastamento passivo-agressivo, mas isso não é uma vitória para todos. Não é sempre tudo sobre ti. Estás numa equipa, estás num departamento”, critica.

      Naturalmente, ver um movimento de trabalhadores, especialmente jovens, a recusar empenhar-se no trabalho fez soar sinais de alarme para muitos patrões – numa altura em que o mais recente relatório global Gallup concluiu que a insatisfação no  trabalho atingiu um novo recorde e que ter funcionários desinteressados resulta numa perda anual de 7,8 biliões de euros.

      Arianna Huffington, fundadora do Huffington Post, criticou a tendência numa publicação viral no LinkedIn: “A demissão silenciosa não é só sobre desistir de um trabalho, é um passo para a desistência da vida. Enquanto empregadora, adoro quando as pessoas nas entrevistas dizem “dou 100% quando trabalho e estes são os meus limites”. Isso é muito diferente de “faço o mínimo que posso”.

      Em vez da demissão silenciosa, Grego Vari, CEO da plataforma de empregos Lensa, sugere que adotemos a “persistência ruidosa” e que os patrões encorajem os empregados a falar abertamente sobre o que pode melhorar no trabalho.

      “Quanto persistimos ruidosamente vamos ter um sentido de pertença e vamos ter interesse no rumo que a empresa está a seguir”, recomenda.

      Claro que as posturas e as opiniões daqueles que estão em lugares de empregadores diferem daqueles que são os trabalhadores assalariados.

      “Eu não me stresso nem me destroço” é uma expressão que se tornou viral nos E.U.A. e já noutros países.

      Mas, afinal, tudo se resume a algo muito simples: quem trabalha sem incentivo, sem perspetivas de futuro, vai trabalhar mais e com redobrado empenho para quê? Quando a realidade é percecionada pelos trabalhadores e esta questão se coloca, a resposta é a desistência ou a demissão silenciosa. Não há uma demissão expressa, mas há uma demissão silenciosa, isto é, muda; não expressa, mas perfeitamente verdadeira e executável.

      E é isto que sucede com os Oficiais de Justiça. Ao longo dos anos foram perdendo muitos dos direitos que detinham, e alguns eram árduas conquistas do passado, ao mesmo tempo que as regras estabelecidas lhes foram alteradas de repente, com cortes muito significativos que representaram a perda de grande parte do valor remuneratório a que tinham direito.

      Já para não referir o corte do subsistema de saúde dos “Serviços Sociais do Ministério da Justiça”, subsistema que muitos Oficiais de Justiça já nem conheceram, releva o congelamento por quase uma década – o que não é coisa pouca – das progressões na carreira, seja nos escalões (progressão horizontal), seja nas categorias (progressão vertical). Este congelamento levou a que todos os Oficiais de Justiça perdessem e percam ainda hoje muito valor remuneratório, pois caso tal congelamento não tivesse ocorrido, todos os Oficiais de Justiça aufeririam hoje uma melhor remuneração.

      A tudo isto, como se não bastasse, acresceu a súbita alteração da possibilidade de aposentação dos 55 para os 66 anos. E não se trata de um problema que afeta só aqueles que detêm essas idades, pois essa alteração afeta todos, prejudicando especialmente aqueles que têm vinte ou trinta anos de idade, pois se os mais velhos não saem, não há progressão possível para ninguém e a mobilidade fica estagnada, tal como sucedeu e sucede.

      É este “novo” estado da profissão, com estas e mais outras características; estado que surgiu nos últimos anos, que prejudica – e muito – os Oficiais de Justiça na sua generalidade, e os leva a uma demissão silenciosa, reduzindo o seu empenho – o que antes não sucedia – ao mínimo exigível do dia-a-dia, ao mesmo tempo que tentam sair para outras profissões.

      Neste período de férias judiciais (também elas cortadas pelo Governo), assistimos à forma como foi produzido o Movimento deste ano, seja na lista provisória, seja na lista posteriormente apresentada, e constatamos os argumentos do Governo expressos na oposição a um dos processos instaurados pelos sindicatos.

      Ao mesmo tempo vemos como as lutas encetadas, sob todas as formas, sejam greves, plenário, vigílias, publicidade em jornais e em grandes “outdoors”, manifestações de todo o género, são sistematicamente ignoradas pelo Governo, acrescentando desmotivação aos Oficiais de Justiça.

      É, portanto, óbvio, que os Oficiais de Justiça se apaguem silenciosamente, restringindo a sua atividade ao que tem de ser. No entanto, esse desligar das atividades do dia-a-dia não deve ser confundido com o silenciamento reivindicativo , demitindo-se também da ação sindical. São coisas diferentes.

      Se, por um lado, é perfeitamente compreensível que os Oficiais de Justiça adotem, perante o serviço, uma atitude de demissão silenciosa; por outro lado, é inadmissível que tal atitude se confunda com o exercício da defesa da sua profissão. Ainda que a situação atual conduza à denominada demissão silenciosa em termos de trabalho, a mesa situação atual não pode conduzir à mesma demissão em termos de luta reivindicativa; esta deve manter-se acesa enão silenciosa, mas ruidosa.

Saida.jpg

      Como não é opção deixar de lutar por melhores condições laborais, porque não vão ser oferecidas, apenas conquistadas, e apesar de, como apreciamos no artigo de hoje, a atitude perante o trabalho, essa sim, poder ser de menor ou mesmo nenhuma luta, impõe-se que todos adiram, não apenas a um, mas aos dois dias de greve da próxima quinta e sexta-feira.

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      Fonte principal: artigo de “Notícias Zap”.

por: GF
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