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Domingo, 25.08.19

A Coragem de Desobedecer

      A Ana Moniz diz que “há grandes tragédias no mundo porque alguém não teve coragem de desobedecer”.

      Quem é Ana Moniz e por que é que diz isso?

      Ana Moniz é psicóloga, psicoterapeuta e autora de um livro que se intitula: “Este Livro Não É Para Fracos”.

      E se o livro não é para fracos é, no entanto, para todos. Depois de o ler, aquela parte de si que impele à coragem, ao altruísmo, à justiça, a pensar pela sua própria cabeça e a agir em conformidade vai agitar-se.

      Escrito de forma muito clara, ajuda não só a perceber que agir com coragem está ao alcance de todos como a saber o que fazer para que as nossas crianças e jovens cresçam mais autoconfiantes, assertivas e corajosas. O Mundo seria um lugar melhor e muito mais bem frequentado com gente assim.

      Ou seja, pelo contrário, o Mundo não é um lugar melhor porque não é frequentado por gente assim, isto é, por gente com coragem mas por fracos que atuam de duas formas possíveis: impondo-se estupidam abusiva e prepotentemente aos demais ou submetendo-se em silêncio e em passividade à estupidez dos prepotentes.

      Em entrevista ao Diário de Notícias, que a seguir vamos reproduzir, Ana Moniz explica o seu ponto de vista que expôs no seu livro sobre os fracos.

      (Diário de Notícias – DN) “Muitas vezes vemos como heróis pessoas que apenas tiveram a coragem de ter a atitude correta. Ter a coragem de agir bem é assim tão difícil que a tomamos como heroica?

      (Ana Moniz – AM) Sim, porque na realidade ter a atitude correta não é assim tão comum. Por isso é que é quase universal emocionarmo-nos e comovermo-nos quando vemos pessoas terem gestos de altruísmo ou de reposição de justiça, por exemplo. Quando olhamos para o dia-a-dia e percebemos o que isso implica, damo-nos conta de que é realmente difícil.

      (DN) Porquê?

      (AM) Esse é o grande objetivo do meu livro, ajudar a perceber quais são as barreiras, para saber o que fazer para aumentar a probabilidade de agir com coragem. É muito centrado na ação. Cada capítulo debruça-se sobre uma delas: a obediência à autoridade, o conformismo, o medo, a vergonha. Estas barreiras criam a pertença a um sistema que, no momento certo de agir, leva a pessoa a não conseguir mobilizar-se nesse sentido e ir-se deixando ficar. Tudo isto faz que seja muito mais difícil de agir do que imaginamos, do que dizemos e do que esperamos dos outros.

      (DN) E de nós próprios?

      (AM) De nós próprios não tanto, porque, para não ficarmos a sentir-nos mal connosco, temos um mecanismo que mantém tudo na mesma, que é a dissonância cognitiva. Se eu me sinto mal porque naquela reunião ou situação não fiz o que acho certo, encontro uma boa razão (que no fundo é uma desculpa) para naquela situação ter ficado quieta, o que perpetua este comportamento, que é diferente do que eu digo que faço.

      (DN) Isso leva-nos à primeira experiência que relata no seu livro, que é sobre obediência à autoridade e é bastante perturbadora. Realizada pelo psicólogo Stanley Milgram, nos anos 1960, mostrou que uma maioria de pessoas normais, mesmo discordando e sentindo-se incomodadas com isso, continuava a dar choques elétricos, que iam aumentando de intensidade, a alguém que estava noutra sala, sempre que a pessoa dava uma resposta errada ao que lhe ia sendo perguntado, porque era isso que se esperava delas e assim lhes era ordenado. Não eram obrigadas, não estavam sob ameaça, a sua vida ou a de entes queridos não corria risco e no entanto continuavam a obedecer. Como é isto possível?

      (AM) Mas isto é o que vemos todos os dias. Esta experiência, para mim, é um dos melhores contributos que a psicologia deu ao Mundo e é muito importante relacioná-la com o nosso dia-a-dia, porque estabelece a diferença entre discordar e desobedecer. Eu, além de ser psicoterapeuta, trabalho muito em organizações, onde se ouve muito a frase “não concordo”. Mas quando perguntamos “e então o que é que fizeste?”, a resposta é muitas vezes “nada, ele mandou”. Há uma diferença entre discordar e dizer para o lado, em surdina, naquele boicote passivo que todos conhecemos, e desobedecer realmente: “não, não concordo, não, não faço”. Desobedecer é mais raro.

      (DN) E o que leva a que algumas pessoas, quando discordam, desobedeçam ou manifestem a sua discordância de uma forma ativa, e outras, mesmo que discordem, se mantenham passivas?

      (AM) Muita coisa pode levar a isso. A ideia que tenho, da minha experiência, é que agir de forma assertiva é um hábito. É disso que estamos a falar: assertividade, autoconfiança, coragem, que aparecem aqui como inseparáveis. Quando tenho esta maneira de olhar para as coisas que me leva, numa situação crítica, a ir fazendo as perguntas certas a mim própria – “eu concordo com isto?”, “Até que ponto?”, “Como faço para desobedecer?”, “A quem é que digo primeiro?” –, quando as pessoas têm este radar, é um hábito que se vai fortalecendo, como um músculo. E é uma maneira de estar. Tipicamente, são pessoas mais independentes. E os outros notam isso, já sabem o que esperar delas, sabem que elas não vão ser muito influenciadas pelo grupo e na verdade confiam mais nelas.

      (DN) Não é importante também que as chefias sejam treinadas a liderar, exercendo a autoridade sem autoritarismo?

      (AM) O Hofstede tem uma frase muito engraçada que é: “só há gente a mandar assim enquanto houver gente a obedecer assim”. Somos todos adultos e todos pessoas e há uma questão em relação às hierarquias: eu e a minha hierarquia temos funções diferentes, é só isso, o respeito que me deve é igual ao respeito que lhe devo a ela. Mas às vezes temos uma postura demasiado infantil e aceitamos ser maltratados e humilhados e isso não faz sentido. Uma coisa é chamarem-me a atenção para um erro que cometi, outra é a forma como falam comigo. E é este lado do respeito que é fundamental. O respeito é uma coisa que se exige reciprocamente. A submissão não exige respeito, é aceitar que o chefe manda. O meu trabalho principal e que eu acho mais útil é trabalhar com as pessoas a assertividade. Porque é que isso é importante? Porque dá o poder de estabelecer limites. Se reparar, até as chefias mais agressivas têm pessoas com quem não são agressivas. Porquê? Porque estas puseram limites e exigem respeito. Isto é perfeitamente possível e é por aqui que as coisas vão avançando.

      (DN) Mas é preciso maturidade dos dois lados.

      (AM) Sim. Mas eu quando trabalho liderança é no sentido de ajudar as pessoas a ser assertivas e não agressivas ou não passivas. Liderar é dificílimo. Está-se sempre a ser visto à lupa e a gerir pressões, gerir pressões de cima e de baixo e não deixar que as pressões de cima cheguem a baixo.

      (DN) O que faz um bom líder?

      (AM) Primeiro, lidera de maneira diferente de como é liderado, se não gostar do modo como é liderado, tem cuidado com as pessoas, consegue ajudá-las a desenvolverem-se, é simultaneamente exigente e cuidadoso. Tem muito a ver com gostar de pessoas e gostar de vê-las “crescer” e ter esta capacidade emocional e autocontrolo de receber pressão de cima e de todos os lados e perceber qual é a pressão que quer passar porque às vezes não adianta nada passar pressão para a equipa. E, por outro lado, aceitar que às vezes vai ser impopular. É um erro querer agradar a todos, porque se não consegue ser assertivo e não consegue frustrar, é como os pais que não conseguem frustrar os filhos, não vai ser bom.

      (DN) Em Portugal, existe alguma dificuldade em aceitar a diferença de opiniões como construtiva, nomeadamente nas organizações, mas também na família e até nas relações pessoais. Há muito aquela ideia de “ou estás comigo ou estás contra mim”. Porquê?

      (AM) Por um lado, tem que ver com a natureza humana e com um lado tribal que a psicologia social explica há muito tempo, há os meus e há os outros, é uma questão adaptativa e de sobrevivência e é universal. Por outro lado, no que respeita a Portugal, de facto, temos uma cultura mais conformista. Somos mais coletivistas, temos uma aversão à incerteza grande e alguma distância em relação ao poder. A conjugação destes três aspetos conduz a uma maior tendência a obedecer, a evitar a ambiguidade e a evitar ser diferente. Nas culturas mais coletivistas, o grupo é o que nos protege em relação às agruras da vida, o mundo é um sítio hostil e o grupo é a nossa garantia de segurança – a família, os colegas, as pessoas que nos rodeiam. É a nossa garantia de segurança e, claro, ao mesmo tempo controla-nos e faz-nos ceder em coisas em que não quereríamos ceder. Por isso, ser diferente é mais difícil.

      (DN) A pressão do grupo é sempre má?

      (AM) A sensação de pertença dá um grande conforto e uma grande estabilidade emocional. É muito importante para nós e é importante quase sempre; a questão coloca-se apenas naqueles momentos em que os meus princípios e valores estão a colidir com a direção em que o grupo está a ir, que muitas vezes é um lado de inação e isso é um aspeto importante para evitar o efeito espectador, em situações em que não fazemos nada porque os outros não estão a fazer nada.

      (DN) As tais situações que apelam à coragem e em que vezes de mais não agimos?

      (AM) Sim, e aí trata-se de aceitar que posso ser a iniciadora e levar o grupo comigo. O Zimbardo fala em ser um desviante pela positiva, aceitar querer ter um impacto no grupo, para mudar o que não está bem.

      (DN) Conformismo é o oposto de coragem. É então sinal de cobardia?

      Eu não uso muito a palavra cobardia porque é tão forte que não nos ajuda assim tanto. A citação que uso no livro é que “o oposto da coragem não é a cobardia, é o conformismo” e tem que ver com este efeito espectador. O grande problema é quando não se faz nada. Coragem é fazer alguma coisa quando os outros não fazem nada e este incentivo ao comportamento corajoso é para aqueles que não agem, o que nós queremos é mobilizar pessoas a passarem da inação à ação corajosa.

      (DN) O programa “E se fosse consigo?”, da Conceição Lino, que assina o prefácio do seu livro, trouxe-nos muita consciência de que muitas vezes não fazemos aquilo que devíamos. Surpreendeu-a?

      (AM) Não, porque já sabia que as pessoas não agem. E acham que agem, esse é que é o problema. Se lhes perguntarem, dirão que parariam se alguém precisasse de ajuda e depois não param. Qual é a boa notícia? É que este programa, que considero serviço público, realmente faz a diferença, nós, depois de sabermos isto, vamos estar mais alerta e vamos parar para a próxima. Pode causar algum desconforto, mas é útil porque para a próxima agirão de maneira diferente. Estas intervenções têm muito sucesso, sobretudo com adolescentes e até com crianças.

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      (DN) O estímulo do pensamento crítico, o ensinar a pensar pela própria cabeça, o dar os instrumentos para que os miúdos desenvolvam essa capacidade falham na educação e no sistema de ensino portugueses?

      (AM) Conseguir que as pessoas possam dizer o que pensam, e que os miúdos tenham liberdade de o fazer desde pequenos, e ao mesmo tempo manter um clima de respeito mútuo é um trabalho árduo, porque é uma autoridade que não vem pelo medo, mas pelo exemplo. Aí, todos nós adultos – educadores, professores, pais – temos que ser exemplos vivos da maneira como se trata os outros com respeito e de como se aceita a crítica e o questionamento. Há pessoas que fazem isto muito bem, outras nem tanto. Eu diria que tendencialmente temos todos dificuldade em fazê-lo e por isso o ensino é muito de cima para baixo, o professor diz, os alunos aprendem e não há muita discussão. Mesmo nas famílias não é comum haver abertura para uma criança ou um adolescente dar uma opinião diferente, política ou social, discutir de uma maneira calma, olhar os adultos nos olhos e dar a sua opinião.

      (DN) A assertividade é muitas vezes confundida com arrogância e agressividade. Como encontrar a dose certa?

      (AM) Sim, não é fácil ser assertivo – saber ouvir, saber dizer sem atacar, conseguir encontrar argumentos, conseguir ficar emocionalmente controlada –, mas quando conseguirmos todos isto, conseguimos chegar a lugares diferentes. Eu acredito que há um esforço individual pelo qual cada um é responsável, mas que também depende da educação e dos exemplos e treino que os miúdos têm em casa. É uma coisa contraintuitiva e que pode ser treinada com muito bons resultados, levando a mudanças muito significativas.

      (DN) Quando fala de conformismo, compara os portugueses e os dinamarqueses, que são dos menos conformistas.

      (AM) Tem que ver com a distância ao poder, que se mede pela facilidade com que as pessoas com menos poder aceitam que outras tenham muito mais do que elas. Nós temos maior distância ao poder, a Dinamarca é dos que tem menos. Mas esta questão de não obedecer a ordens tem um lado de que se fala menos: implica que eu seja responsável pelas minhas ações e decisões e isso também não é fácil. É uma cultura de responsabilização. Fácil é, quando as coisas correm mal, dizer: “eu sabia que não ia funcionar, mas eu não mando nada”. Temos muito isto e isto é o oposto, é a desresponsabilização completa.

      (DN) Isso terá que ver com o facto de nos países nórdicos existir, há mais tempo, uma cultura de maior igualdade e responsabilidade, desenvolvida graças a sistemas sociais, políticos e educativos que a estimulam?

      (AM) Há um aspeto importante quando falamos de cultura: cultura é o modo como as pessoas estão a comportar-se neste local agora e vai mudando à medida que as sociedades mudam e têm contacto com outras culturas. Conhecer a nossa cultura é ter informação útil sobre os nossos hábitos e comportamentos, o que nos permite compreender o que queremos manter e o que queremos alterar. Às vezes usa-se a cultura como desculpa para o imobilismo, mas é uma má desculpa. O que decide fazer (ou não fazer) é uma escolha sua. A assertividade aparece muito como uma palavra de psicólogo, muito gira, muito “trendy”, mas a verdade é que grandes tragédias no mundo aconteceram porque alguém, um engenheiro, um militar, alguém, não foi assertivo o suficiente para contrariar uma ordem injusta ou para dizer que havia ali um risco e depois caem pontes, estradas abatem, há abusos de poder, acontecem coisas gravíssimas…

      (DN) … chegam ao poder pessoas incompetentes, mas muito autoconfiantes.

      (AM) Exatamente. A tragédia é quando pessoas incompetentes têm muito mais poder do que pessoas competentes, mas pouco autoconfiantes para dizer o que pensam. Não há nada que me dê mais gozo no meu trabalho do que ajudar pessoas muito competentes e pouco autoconfiantes a serem mais assertivas. O mundo está cheio de líderes incompetentes e autoconfiantes. É que nós, pessoas em geral, temos um problema: tomamos autoconfiança por competência e naquelas primeiras impressões vemos alguém muito convicto e achamos que sabe exatamente o que está a dizer. Isto é perigoso. Até porque geralmente é ao contrário, as pessoas mais competentes são mais perfecionistas, mais autocríticas e por isso têm menos autoconfiança.

      (DN) Como é que se trabalha a autoconfiança?

      (AM) Tem muito que ver com medo, vergonha, crenças acerca de nós e dos outros, sensação de perigo de ser criticado ou de ser rejeitado. Muito disto passa por dessensibilização. Habituar-se a expor-se e perceber que ainda que seja mau errar em público, alguém dizer mal de nós ou criticar-nos, isso não nos destrói, não é assim tão mau, compensa, pode valer a pena e por isso ir fazendo isso. Há um trabalho de casa que eu mando muitas vezes que é: de hoje para amanhã faça alguma coisa ridícula. Se aguentar as reações a isso, também aguento poder ser criticado numa reunião e toda a gente rir para o lado, porque senão o que acontece é que damos um enorme poder àquela atitude cínica de ir sempre só criticando, que temos muito em Portugal, e que é absolutamente destrutiva e estéril.

      (DN) Se isso for trabalhado na infância, talvez seja mais fácil. Como é que os pais podem estimular a autoconfiança e a assertividade nas crianças?

      (AM) É tudo mais fácil na infância. Relativamente à vergonha, que é uma das maiores barreiras, é não usar, nunca, desdém quando a criança falha, não usar ironia, aceitar que ela falhe, aceitar até que tenha vergonha de falhar e explicar que não tem mal, e, por outro lado, não a superproteger em relação à vergonha e ao ser diferente e nós fazemos muito isso: não tem os ténis xpto, compramos; é o único que não tem telemóvel, damos um telemóvel. Estamos a fazer isto e já estamos a retirar-lhes força relativamente à autoconfiança, que é : “eu sou diferente, e então?” Todos somos diferentes. Aceitar isso e viver bem com isso é muito mais importante do que protegê-los de mais.

      (DN) E a assertividade?

      (AM) É importante aceitar que as crianças perguntem muito o porquê das coisas, estimular-lhes a curiosidade. Claro que há alturas em que não podemos estar a explicar tudo porque não temos tempo ou não temos paciência, mas aí é mesmo importante dizer: “tu vais decidir cada vez mais coisas ao longo da vida, eu agora estou a decidir por ti porque ainda não consegues sozinho”. É muito diferente dizer “estou a proteger-te porque ainda não consegues sozinho” do que “é assim porque eu estou a mandar e cá em casa mando eu”.

      (DN) Muitas vezes os miúdos mais interventivos estão sempre a trazer recados da escola para casa porque perturbam o funcionamento da aula, intervêm de forma desadequada, etc. Como é que faz este equilíbrio de exigir respeito pelo professor e pelas regras sem os inibir de intervir?

      (AM) Isso tem mais que ver com a forma e com a intenção. Tem que ficar claro que a intenção nunca pode ser desestabilizar ou humilhar o outro e aí também podemos ajudar perguntando “então o que propões de diferente, o que achas que aqui não está certo, o que farias de diferente?” Não é ser contra por ser contra, o que de resto se aplica também aos adultos. Mais uma vez é uma questão de responsabilização.

      (DN) É estabelecer a diferença entre um provocador e alguém que está a tentar dar um contributo válido para uma discussão?

      (AM) Sim e perceber se a intenção é provocar ou se tem que ver com curiosidade ou reposição de justiça, por exemplo. Mas nós temos aí um caminho grande para andar. Na questão do “bullying”, por exemplo, quando dizemos a um miúdo que vem queixar-se “não sejas queixinhas”, já estragámos tudo. Se os adultos a quem eles recorrem não são recursos para repor justiça, para que as coisas corram bem, estamos a estragar, estamos a passar aos miúdos a ideia de que o apoio dos adultos, que dizemos para procurarem, não existe.

      (DN) A autoconfiança é um bom antídoto para o “bullying”?

      (AM) A autoconfiança é das melhores maneiras de evitar uma série de coisas, nomeadamente o “bullying”. Não só os miúdos mais autoconfiantes não são vítimas, como muitas vezes são travão. Eu refiro um estudo no livro, um estudo longitudinal, que mostra que o “bullying” tem o mesmo efeito na vida das pessoas que o sofrem como ter vivido a infância e adolescência institucionalizado ou numa família de acolhimento, o que é brutal, porque sabemos que alguém que passou uma infância assim vai ter dificuldades na vida. Qualquer adulto responsável por crianças é responsável por não permitir “bullying” e não permitir é criar um sistema em que o “bullying” nunca é reforçado, tolerado ou permitido sequer. Numa cultura em que não há “bullying”, é muito menos provável que alguém vá fazê-lo porque não vai ganhar nada com isso, não vai ganhar “status”, pelo contrário, vai perder, e os adultos são os responsáveis por criar esse ambiente e não é só quando já há queixas, é estar sempre a ver como é que os miúdos falam entre eles, como é que brincam, vigiar o recreio, não ser ele próprio um “bully” na maneira como fala, porque este é o primeiro passo, a maneira como nós adultos damos o exemplo e falamos com os outros, gozamos, humilhamos. Não há nada melhor para uma criança fazer “bullying” do que ter um exemplo em casa ou na escola de quem o faz. Ficamos muito chocados com o “bullying”, mas o “bullying” não vem do nada. Por isso, tem que haver uma mudança estrutural de que professores, pais e quaisquer adultos responsáveis por crianças são os principais agentes.

      (DN) No seu livro, fala numa experiência com bebés que indica que o ser humano tem uma propensão natural para o altruísmo. Porquê ou como é que perdemos essa capacidade?

      (AM) O altruísmo faz sentir bem. Agir bem é das melhores coisas que podemos fazer na vida, mas quando começamos a perceber qual é o grupo a que pertencemos e a maioria não faz nada, aí começa a vergonha e o que os outros vão pensar de nós pesa. Se os outros não estiverem a fazer nada, se eu fizer alguma coisa, sou rejeitada e aí a vergonha trava para ficarmos iguais ao grupo a que estamos a pertencer.

      (DN) E como é que se educa para o altruísmo?

      (AM) O programa da Conceição Lino foi muito importante, mas mesmo nas escolas podemos orientar os miúdos para o que fazer em situações em que alguém precisa de ajuda, por exemplo, chamar o 112. Não é incentivá-los a pôr-se em risco e a ser aquele herói impulsivo que arrisca a vida pelos outros, é como posso ser o herói a longo prazo e no coletivo, estar atento ao que rodeia, participar naquilo que nos rodeia.

      (DN) A empatia é essencial para ter coragem, para se pôr no lugar do outro e perceber o que ele está a sentir?

      (AM) Ser tratado de modo empático é a melhor maneira de poder desenvolver a coragem porque é a melhor maneira de poder desenvolver a autoconfiança. E é um grande fator de sucesso, porque faz a diferença.

      (DN) E o medo também faz a diferença?

      (AM) O medo vai estar sempre cá. A coragem é saber gerir o medo. Saber aceitá-lo, aceitar que ele vai subir e descer e geri-lo e avançar com ele, não há nada que se faça de importante sem medo, o sentido de realização é um sentido de ultrapassar, evoluir, e isso só se consegue contra o medo, porque o medo serve para ficar quieto e sobreviver. A gestão de medo é algo que podemos desenvolver, alguns de nós somos mais propensos ao medo do que outros, mas evolui-se, é uma questão de vontade e de treino, expor-se às consequências, mas com a consciência de o medo vai estar sempre connosco.

      (DN) O medo está muitas vezes presente na forma como educamos os nossos filhos, temos sempre medo de fazer a coisa errada, de que lhes aconteça alguma coisa. Isso é-lhes transmitido?

      (AM) Sim, transmite-lhes a noção de que são frágeis e o mundo é perigoso e isto é grave porque mais à frente vai ter consequências. Como mãe sei que é difícil, mas temos que aceitar o risco, não há outra maneira, temos é de prepará-los para saber lidar com o risco. Coisas tão simples como atravessarem a estrada, irem sozinhos. A nós cabe-nos vigiá-los, sem passar para eles a ideia de que o perigo espreita a cada esquina, porque isso não vai evitar os perigos todos, só fará com que tenham menos confiança e estejam permanentemente alerta e isso não é bom. Cabe-nos protegê-los, não meter-lhes medo, que isso não é protegê-los. No limite, se eles tiverem medo de tudo, não fazem nada, mas é isso que queremos? Não. Temos é que ensiná-los como agir numa situação de perigo.

      (DN) O medo do ridículo, que é outra das barreiras que aponta para a coragem, não faz alguma falta para nos protegermos, na relação com os outros e connosco próprios?

      (AM) Sim, mas a vergonha que decorre de estar preocupado com o que as pessoas vão pensar e o medo de ser julgado não é assim tão útil. No fundo, o importante é que as pessoas ganhem flexibilidade, percebam quais são as batalhas a que vale a pena ir, quando é que não aceitam que a vergonha as limite, criar o tal radar interior que é pensar pela própria cabeça. Não se trata de perder a vergonha totalmente, mas de perceber o que não devemos deixar de fazer por vergonha e depois aceitar falhar, aprender que falhar não é ser um falhado, que o erro faz parte da vida e que podemos aprender com ele, usar o erro como progressão, progressão, progressão. Nós temos uma cultura muito instituída do tem jeito, é inteligente, é especial, antigamente não se se elogiava nada, agora são todos especiais. Não é ser especial ou ter jeito que deve ser elogiado, o que deve ser elogiada é a atitude, o esforço a perseverança.

      (DN) Louvar mais o esforço do que a inteligência.

      (AM) Sim, porque a inteligência eu não controlo. O outro lado disto é aquela coisa que raia a pseudopsicologia “light”, que é: “tu podes conseguir tudo”. Não pode nada conseguir tudo, não é bom sequer dizer estas coisas.

      (DN) O tens que ser positivo.

      (AM) A tirania do pensamento positivo causa realmente dano às pessoas.

      (DN) Como se dependesse só da pessoa, como se tivéssemos que estar sempre felizes, como se o sofrimento não fizesse parte da vida.

      (AM) E como se as emoções mais desagradáveis não fossem totalmente saudáveis. Quem só pensasse positivo e nunca estivesse alerta já não estaria vivo na idade adulta. As emoções são todas adaptativas. E esta tirania do pensamento positivo não funciona, se há uma coisa que nós, psicoterapeutas, sabemos é que o lado mais autocrítico e mais negativo não desaparece, podemos é criar o que chamamos a voz apoiante, que vai ajudar a pensar “podes conseguir”, “não tem mal se falhares”.

      (DN) O “pensa positivo” é vazio?

      (AM) Sobretudo não é inócuo. Eu faço “coaching”, “executive coaching”, e o “coaching” tem péssima fama e às vezes merecida quando promete o impossível. Numa situação em que a pessoa devia era estar a fazer psicoterapia até pode ser perigoso porque pode ficar pior do que estava antes, porque não consegue pensar positivo. Eu comparo à homeopatia e a algumas “medicinas” alternativas, que não é que não façam nada, podem mesmo provocar dano ao atrasarem ou impedirem a procura da ajuda necessária. A vida é difícil, há emoções difíceis e este realismo em relação à vida é importante para lidar com a adversidade, com o risco, com o medo, com a perda, com a vergonha, com a tristeza, isso é que nos permite ir levando o melhor possível e ter momentos bons e sentirmo-nos bem connosco.»

AnaMoniz2.jpg

      Fonte: “DN Life”.

por: GF
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às 08:05


2 comentários

De Durval Lopes a 25.08.2019 às 15:53

Ou estás comigo ou estás contra mim, a nossa miséria

De Anónimo a 25.08.2019 às 18:21

Os sindicatos representativos das carreiras especiais da função publica deviam-se reunir para analisarem as declarações do primeiro ministro e responderem conjuntamente sobre "quem captura quem".

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