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Oficial de Justiça

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Domingo, 11.01.26

Atualidade: Quando a lei é do mais forte, a democracia é dos fracos

      «A fotografia explodiu nas redes sociais. Nicolás Maduro, sentado, vendado, auscultadores nos ouvidos, colete à prova de bala – como um animal capturado. A imagem que os Estados Unidos decidiram mostrar ao mundo exibiu um homem completamente desarmado, controlado, reduzido a prisioneiro dentro de um avião militar americano. O uniforme militar tinha desaparecido. O poder tinha desaparecido. Restava apenas um homem à mercê de quem o capturou. Aquela fotografia não era prova de justiça. Era um troféu de guerra. Era prova de força bruta.

      Quando comandos americanos invadem um país soberano, arrancam o seu líder do quarto e o transportam para Miami, enquanto divulgam imagens que humilham, não estamos perante aplicação da lei. Estamos perante a lei do mais forte.

      O direito internacional, que deveria proteger as nações pequenas contra as maiores, revelou-se o que sempre foi: um conjunto de regras que os poderosos invocam quando lhes convém e violam quando lhes apetece. Maduro pode ter sido um ditador, mas a sua captura violou o princípio da soberania. E quando a soberania se esgota, o direito internacional desmorona-se para todos.

      Mas este problema não é apenas internacional. A mesma lógica atravessa fronteiras e entra-nos pela porta de casa. Internacionalmente, a lei do mais forte revela-se quando as potências ignoram tratados. Nacionalmente, revela-se quando os cidadãos, perante a ineficácia ou morosidade dos tribunais, substituem o Estado por quem promete resolver o que a lei não resolve.

      Em maio de 2025, chegou a Portugal uma empresa espanhola Anti Okupas. Uniformes pretos, boinas, ex-polícias contratados. Cobram para expulsar ocupantes ilegais das casas.

      Entram, retiram as pessoas à força, mudam fechaduras. Tudo filmado, tudo publicado nas redes sociais como troféu, com a mesma lógica da fotografia de Maduro: mostrar quem manda.

      O Ministério Público abriu investigação. Juristas chamaram-lhe um atentado ao Estado de Direito. Mas os clientes continuam a aparecer. Porquê?

      Porque, para muitos proprietários, a alternativa é ver a sua casa ocupada e ouvir o Estado dizer: "Espere. Um ano. Talvez mais." Quando o Estado não protege, o mercado aparece para vender proteção. E quem compra não se sente criminoso. Sente-se justificado. Sente-se abandonado. E pior: sente-se certo.

      O proprietário que corta a água e a luz à casa que lhe foi ocupada pode ser denunciado. O comerciante que tranca o ladrão até a polícia chegar pode ser investigado por sequestro. Quem reagiu por desespero passa a arguido. Quem iniciou a injustiça veste a pele de vítima. Porque o Estado não estava lá quando devia estar. E, quando aparece, aparece muitas vezes para punir quem se defendeu, não quem ofendeu.

      A diferença brutal entre o Capitólio e o Planalto mostra até onde isto pode ir.

      Em Washington, em janeiro de 2025, os atacantes do Congresso foram perdoados. Mais de mil e quinhentos. Todos. Trump concedeu clemência geral a todos os condenados e acusados do 6 de janeiro.

      No Brasil, no mesmo mês, os atacantes do Planalto foram condenados: trezentos e setenta e um com penas entre 3 e 17 anos e meio de prisão. A mesma cena – multidões a tentar derrubar o resultado de eleições. Desfechos opostos. Não porque a verdade fosse diferente. Porque o poder era outro. A justiça não foi igual para todos. Foi igual a quem mandava.

      E se fosse em Portugal? Se amanhã uma turba invadisse o Parlamento, quebrasse janelas, destruísse documentos, agredisse seguranças, o desfecho seria prisão ou perdão? A resposta honesta é desconfortável. Não dependeria de quem vencesse as eleições a seguir? Se quem instigou ganhasse, não se falaria em "manifestação exaltada", reconciliação, perdão? Se perdesse, não se exigiriam penas exemplares?

      Não seria isto transformar a democracia numa roleta russa judicial onde o resultado depende de quem segura a arma?

      As defesas do Estado de Direito exigem três coisas: independência, celeridade e coragem.

      Portugal tem, com todas as imperfeições, juízes independentes. Mas falta-lhe uma coisa essencial: celeridade. E sem celeridade, tudo o resto é teatro.

      De que serve um sistema judicial formalmente independente, se a decisão chega quando o crime já prescreveu, a vítima já desistiu, o agressor já fugiu ou o proprietário já perdeu a casa?

      Sem tempo, a justiça não é justiça. É arquivo.

      A captura de Maduro, os despejos dos Anti Okupas, os perdões de Trump em Washington e as condenações no Brasil são capítulos da mesma história: a substituição lenta, mas constante, do Estado de Direito pela lei do mais forte.

      Cada dia que um processo se arrasta, mais um cidadão desiste do tribunal e recorre à força.

      Cada porta arrombada por uma empresa privada, cada vídeo de humilhação partilhado como troféu, cada perdão coletivo concedido a quem atacou a própria democracia, é um prego discreto no caixão do Estado de Direito.

      A defesa da lei que vale para todos não é uma questão de direita ou de esquerda. É uma questão de civilização.

      Ou temos leis que se aplicam a todos, do mais poderoso ao mais frágil, ou temos apenas recomendações que os fortes ignoram quando lhes convém. E nesse mundo, não importa quem ganha as eleições. Importa quem tem os meios para as apagar.

      A pergunta não é se Maduro é um ditador, ou se os atacantes do Capitólio são patriotas ou criminosos. A pergunta é se aceitamos viver num mundo onde a justiça depende da força de quem a aplica.

      Porque, se aceitarmos, amanhã será mais um líder vendado num avião militar.

      Depois de amanhã, será um proprietário à porta de casa, rodeado de homens fardados que não são do Estado.

      E, um dia, será qualquer um de nós, à porta de um tribunal fechado, com um papel na mão e nenhuma resposta.

      Nesse dia, não haverá lei. Haverá apenas o mais forte. E o mais fraco. Como sempre aconteceu, antes da lei existir. E desta vez, se deixarmos chegar lá, já não haverá ninguém para nos salvar.»

PunhoSobreHomem(DDOJ).jpg

      Fonte: reprodução do artigo de opinião assinado por João Massano, bastonário da Ordem dos Advogados, intitulado: "Quando a lei é do mais forte, a democracia é dos fracos" e publicado no Expresso.

por: GF
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Autoria e outros dados (tags, etc)

às 08:01


30 comentários

De Anónimo a 11.01.2026 às 10:42

Bom dia 
Excelente análise de uma perigosa realidade em crescendo que o mundo olha sem capacidade alternativa…

De Anónimo a 11.01.2026 às 10:52

  "Portugal tem, com todas as imperfeições, juízes independentes. Mas falta-lhe uma coisa essencial: celeridade. E sem celeridade, tudo o resto é teatro".


Exerço funções numa central criminal, desfalcada de um funcionário


Como o Órgão de Gestão, considera que a albarda ainda é pouco pesada, 


Determinou, que temos que fazer, também, serviço externo 


Faz-se uma coisa em detrimento de outra - dizem uns


Mas é bem pior do que pensam, 


Porque, os das centrais criminais, na rua já são olhados de lado, 


Imaginem agora, que decorridos apenas uns dias de uma pessoa ter sido condenada a 20 anos de prisão, ter que me deslocar a casa de um familiar dessa pessoa para lhe arrestar os bens 


Dizem outros,
Leve a polícia, pois é
Por esse raciocínio de ideias, qualquer dia para sair de casa, tem que ser com a companhia da polícia 


Putos, ponham-se ao fresco, isto, já foi chão que deu uvas 

De Anónimo a 11.01.2026 às 14:51

Ora aí  está!
Mas pelos vistos está  tudo bem.
Escravos  gostam

De Anónimo a 11.01.2026 às 17:17

Certeiro!

De Anónimo a 11.01.2026 às 17:54

Melhor não  diria

De contra redes sociais a 11.01.2026 às 11:03

Opinião bastante confusa me parece.
Mistura assuntos que nada têm a ver. 
Não critica quem, apesar de derrotado nas eleições, assume o poder esquecendo a vontade de quem votou? Esse é o maior facto que, apesar da Lei internacional, legitimará quem pôs fim a tal usurpação, já que na rua os eleitores civis, não conseguiram que o seu voto tivesse valor.É só imaginar isso cá p.ex. nas últimas eleições.Quem ganhou, ficar fora do governo..... 
   Sobre Portugal ter juízes independentes concordo plenamente.Quanto à falta de celeridade, não concordo,  porque muitos processos são terminados anualmente. Mas, a ser verdade,  porque não vai o opinante às causas? 
A legislação está adequada? Há meios materiais e humanos suficientes? É que Magistrados e Oficiais de Justiça são interligados no trabalho em equipa.Nāo é cada um a trabalhar para o seu lado. Se não houver equilíbrio no número de elementos há quebras. As peças da máquina não funcionam.
Podem ser proferidos muitos despachos e rápido, mas se não houver quem os cumpra, os execute,  essa quantidade e rapidez do Magistrado ficam prejudicadas.
  Haja mais investimento em mais formação, mais especialização, menos burocracia, maior número de entradas de pessoas e tudo muda. Estarão os governos interessados nisso? Os Oficiais de Justiça sabem há muito que não porque no terreno sofrem há muitos anos, com os mesmos problemas.🐒

De Anónimo a 11.01.2026 às 11:13

Exelente!
Falta  dizer que sem funcionários  também  não  há  justiça célere 

De Anónimo a 11.01.2026 às 17:14

Funcionários?


Eheh


Putos novos ganhem vínculo  e ponham-se fora disto que não  é  vida

De Anónimo a 11.01.2026 às 11:31

Eu como cidadão  Venezuelano que sofri  na pele o que é  ser vítima  de ditadores, estou-me  lixando para o direito internacional neste caso em concreto.
Quero é  ser livre e viver dignamente.

De Anónimo a 11.01.2026 às 14:53

Sem dúvida.  Há  casos em que o direito  internacional é  merda.
E os direitos humanos onde ficam? Para quem sofre na pele nesses países  onde é  só  ditadores???
Em que ficamos??

De Anónimo a 11.01.2026 às 17:13

Amigo, aqui é  só  cegos.
Só  vêm  o que lhes convem.
Direitos humanos não  convém  pelos vistos.

De Anónimo a 11.01.2026 às 11:59


Estamos a passar rapidamente do tempo das liberdades a mais, que deram em deboche, devaneio, libertinagem edespespeito pela tradição e cultura ancestrais, individualismo incontrolável, egoismo doentio, exposição gratuita e desnecessária aos restantes de sentimentos, emoções e preferências sexuais, para um tempo antigo e também ele, prejudicial à sociedade como já provou anteriormente ser. 
É agora a hora dos brutos e ignorantes, novameete. Dos insensíveris, da violência verbal e fisica sobre quem não obedece, concorda e aceita.
Tanta informação e tanta intelectualidade e não conseguimos manter o meio termo, o bom senso, o respeito por todos e todos respeitarem a sociedade a que pertencem. Como chegámos a este ponto?
E agora? Quem nos vai defender desta realidade? As drags que gritam pela defesa de Gaza e ignoram o terror perpetrado pelos Russos?? Os jovens homens completamente afeminados que criámos? As mulheres com modos de motorista de camião, peso a mais e cabelo rapado dos lados?
Perderam-se todas as bússolas que regem e gerem uma sociedade. Uma sociedade com liberdades instituídas não deve ser sinónimo de uma sociedade com libertinagem e desrespeito pelas maiorias que elegem os seus líderes democraticamente. As minorias devem ser respeitadas, obviamente, mas não devem ser quem manda. Simples.
Por outro lado - e estou-me pouco marimbando para opinião de outros - começo a achar que o direito ao voto deveria ser escrutinado prévia e seriamente, nomeadamente, deveria todo e qualquer cidadão ser sujeito a um teste mental e de cultura geral, particularmente sobre história da humanidade e política, para poder ser eleitor. A ignorância de uns não pode valer o mesmo na urna de voto do que os restantes, sob pena de vermos extremistas tomarem novamente o poder, como está a acontecer. Não é ao calhas que Trump disse várias vezes que adora os pouco instruídos...

De Vitalino do Rabaçal a 11.01.2026 às 13:27

Sabem lá o que é o Direito Internacional, essa coisa que inexiste!!! Bom, bom, será viver sob o jugo soviético ou do Hamas....

De Anónimo a 11.01.2026 às 17:19

E direitos humanos pá?
Porque não  fiste viver para a Venezuela? Ou porque  não  vai experimentar  a Russia?

De Anónimo a 11.01.2026 às 15:22

Contra os ditadores que me roubaram de 2001 a 2005
Estou de baixa por igual período. 
Até  que reponham o produto  do ROUBO 

De Anónimo a 11.01.2026 às 17:17

Força!
E caga mesmo para as críticas.
Ao menos  tens coragem de dizer o que a maioria  faz  e não  diz para não ser criticado.

De Anónimo a 11.01.2026 às 18:22

👍

De Anónimo a 11.01.2026 às 17:55

E vão  dois

De Anónimo a 11.01.2026 às 16:21

Então  os pedofilos dos partidos anti ventura já  firambl expulsos dos respectivos partidos??
Pois é.  


Cabro-----'

De Anónimo a 11.01.2026 às 17:21

Eheh
Pedofilos  no ps e psd não  há  nem junca houve


Nem corruptos 




Filhos do car

De Anónimo a 11.01.2026 às 17:57

Pedofilos era castração  e mais nada!

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