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Quarta-feira, 14.01.26

Isto não devia acontecer num edifício gerido por entidades responsáveis

      Foi ontem notícia que um indivíduo partiu à paulada um total de 36 vidros de 11 janelas do Tribunal de Viana do Castelo.

      Não estava ninguém no Tribunal, porque o ato terá ocorrido de madrugada, por volta das 4 da manhã, e o indivíduo terá sido detido logo de seguida, ainda junto ao Tribunal.

      Das imagens disponíveis nos vários meios de comunicação social, designadamente nos regionais, percebe-se que os vidros partidos são os das janelas que estão ao nível da rua, portanto, perfeitamente acessíveis e sem nenhuma proteção especial.

      Constata-se ainda que as janelas são antigas, têm uma caixilharia de madeira e os vidros são simples, como já não se usa em lado nenhum e não se usam essencialmente por questões de isolamento térmico, mas também sonoro e, agora bem se vê, porque também não oferecem segurança absolutamente nenhuma.

      No edificado mais antigo, que é o que mais abunda no país, os problemas térmicos são gravíssimos, todos passando frio no inverno e calor no verão, mas, pior ainda, com janelas como as que vemos nas imagens, é também habitual que as audiências tenham problemas com as gravações pelo ruído da rua que facilmente atravessa as janelas de vidros simples como se usava há mais de meio século, porque não havia mais nada.

      Das fotografias constata-se ainda como, através de um buraco num vidro partido se vê o interior do Tribunal, logo ali acessível, com prateleiras com aquilo que parecem ser caixas de arquivo, portanto, muito papel que podia ter sido objeto de algum outro tipo de ataque.

      Por sorte, o indivíduo só quis partir vidros e não estaria com outras intenções, porque os nossos criminosos, afinal, são, como todos, pessoas de brandos costumes e quando cometem crimes, não deixam de ser brandos.

      Portugal é um país com muita sorte, com um Povo muito tranquilo que nem crimes graves é capaz de cometer.

      Mas devemos continuar a acreditar na sorte e nos brandos costumes? Não deveria ser necessário que o Governo, através das suas duas entidades que têm o dever de cuidar dos tribunais (DGAJ e IGFEJ) verificassem e aplicassem, com urgência, medidas para evitar casos como os de Viana do Castelo? Não seria razoável que se aplicasse uma caixilharia para vidro duplo ou triplo, com vidro laminado, temperado ou multilaminado, especialmente nas janelas que se encontram ao nível da rua?

      Não deveria ser difícil, senão mesmo impossível, quebrar vidros de um tribunal? Não deveria ser difícil, senão mesmo impossível, deixar que através de uma janela partida se atirasse, por exemplo, uma beata acesa de um cigarro ou qualquer outra coisa?

      Um dia virá em que as entidades responsáveis acabarão por ser mesmo responsáveis, mas tal só deverá acontecer após a ocorrência de uma infeliz tragédia, pois, como todos sabem, a sorte não dura sempre.

      Ao longo dos anos temos aqui dado muitas notícias sobre problemas de segurança nos tribunais e temos sempre aconselhado os Oficiais de Justiça a ter muito em conta que os tribunais não são locais seguros, pelo que devem ter o cuidado de não deixar nas suas secretárias ou armários, bens pessoais que não queiram perder, bem como ter o cuidado de realizar cópias de segurança dos seus ficheiros para local que fique fora do edifício onde laboram, pois no caso de uma fatalidade, como um incêndio, um furto ou qualquer vandalização, podem perder tudo.

      Apesar dos brandos costumes, o risco de trabalhar nos tribunais é mais elevado do que noutros locais, porque há sempre mais gente descontente com os tribunais do que a que está satisfeita, especialmente naqueles locais onde se condenam pessoas pela prática de crimes, ou se fixam regimes especiais sobre menores, ou onde se fazem penhoras, insolvências… Raro será o local onde o risco não exista e todos saiam satisfeitos da vida.

      Ora, como a sorte não dura para sempre, é fundamental que se tomem medidas de segurança que ponderem um futuro sem sorte, porque trocar o vidro simples quebrado por outro idêntico, com as mesmas características, porque é barato e mais imediato, é deitar dinheiro público ao lixo.

      É responsabilidade dos Oficiais de Justiça preocuparem-se com estes assuntos, desde logo porque são Oficiais de Justiça os que ocupam cargos de Secretários de Justiça e de Administradores Judiciários. É, pois, responsabilidade dos Oficiais de Justiça ter também mais esta preocupação e forçar as entidades governamentais para que aportem a segurança em falta; segurança esta que não é só do edificado, em abstrato, mas especialmente das pessoas que todos os dias laboram nos edifícios e, não esquecer que, nessas pessoas todas, a maior parte, na grande maior parte, estão cerca de 7 mil e quinhentos Oficiais de Justiça que carecem deste cuidado.

VidrosPartidos-TJ-VCT-20260113-A.jpg

VidrosPartidos-TJ-VCT-20260113-B.jpg

VidrosPartidos-TJ-VCT-20260113-C.jpg

      Fontes (notícia e imagens), entre outras: “O Minho”, “Jornal de Notícias”, “Observador”, “Correio da Manhã” e “Press Minho”.

por: GF
oficialdejustica.blogs.sapo.pt

Autoria e outros dados (tags, etc)

às 08:04


36 comentários

De Anónimo a 14.01.2026 às 10:03

Bom dia.
Como se diz por aí "mente desocupada é oficina do diabo!".
E terá sido um desocupado que terá perpetrado aquele arremesso aos vidros das janelas.
Discordo em grande parte do que foi dito no texto.
Se há edifícios em que se justifica a substituição da caixilharia outros há que não é necessário nem recomendável que aconteça e explico porquê.
Há edifícios que do ponto de vista arquitetónico não devem ver as suas características principais alteradas, o que inclui também alguns aspetos de carpintaria, como janelas e portas, que se devem preservar e o ponto é este, o que é que é feito ou está a ser feito para preservar estes edifícios, que são muitos pelo país fora? Rigorosamente nada!
Não há calafetagem nem tratamento das madeiras no edificado mais antigo e no mais recente não se reparam os mecanismos hidráulicos nem as persianas, aliás deve-se dizer que em alguns edifícios  a melhor solução nem sequer passa pela substituição da caixilharia existente mas apenas reforçá-la com outra, externa ou interna, tornando-a dupla, sendo mais económica e prática.
Claro está que há edifícios que precisam de maior eficiência energética e não se colocam os entraves que referi, seja arquitetónicos sejam técnicos, pelo que a substituição é o mais viável, economicamente e não só.
Para que isso acontecesse era necessário um bom planeamento das intervenções - e eu lembro do documento produzido pela DGAJ sobre a reforma de 2014, que incluiu um estudo muito aprofundado do edificado existente e das necessidades de intervenções urgentes e de adaptação.
Todavia, colocaram o assunto nas mãos nos Juízes - sim dos juízes presidentes - e já não dos administradores ou secretários como erradamente refere o texto - noto que não sou desempenho ou desempenhei nenhum destes cargos.
Estes limitam-se a pequenas intervenções de manutenção e conservação interior, como pinturas (limitadas a 10 ou 15 mil euros e desde que haja orçamento) e reparações urgentes nomeadamente nos exterior, telhados ou coberturas, estas sempre sob autorização do IGFEJ. 
Tudo o mais é decidido pela DGAJ/IGFEJ a quem compete a gestão do parque imobiliário e são os senhores Juízes que sinalizam, através do CSM, as situações de carência.
Pode-se questionar algumas situações/decisões absurdas - por exemplo porque é que o Tribunal do Cartaxo tem elevador/plataforma elevatória e o Tribunal de Penafiel não tem? apesar de ser a sede da comarca, concentrando uma grande parte dos serviços,  com o JC Criminal, JCentral e Local Cível situados no piso superior, assim como a maioria dos magistrados, e não tendo este tem o de Lousada?
A resposta que nos assalta de imediato o pensamento é que não há critério na decisão, assim como também não há planeamento e as obras acontecem por acaso ou maior ou menor pressão e já não pela necessidade ou abrangência do serviço à população.
Resumindo: predomina a incompetência que todos os dias vemos ser premiada nos cargos que lhes são destinados.
Falam em Licenciados em Gestão para os órgãos de comarca e qualquer dia vão recrutar Engenheiros Civis  para o setor do edificado e Engºs Informáticos ou Técnicos de Informática ou de Comunicação para gerir os conteúdos das páginas de cada Tribunal e por aí fora ...
Otários é o que somos.
A Arquitetura dos Tribunais (referindo-se à filosofia do seu funcionamento) ela sim é que precisa de uma reforma profunda, e já se não basta com intervenções pontuais ou urgentes (remendo  novo em pano velho só aumenta o buraco).
É preciso o foco nas pessoas e só depois vem o resto - o bem maior é o capital humano, pois sem este a casa da justiça não tem vida, não funciona, só depois vem o edificado - por isso dediquemo-nos ao primeiro - a nós oficiais de justiça - e depois trata-se do resto!
Precisa-se de um novo Estatuto já, para ontem!
 

De oficialdejustica a 14.01.2026 às 10:16

Nota: o texto não contém nenhum erro quando diz que são os Oficiais de Justiça responsáveis pelos pedidos à DGAJ e ao IGFEJ. Claro que os juízes presidentes, os procuradores coordenadores, os presidentes das delegações da OA e outros podem sinalizar os problemas aos respetivos órgãos, entidades e até à comunicação social, mas quem efetivamente trata do assunto e pede uma coisa mais complexa ou outra coisa mais simples.

De Anónimo a 14.01.2026 às 10:31

Está redondamente enganado.
Os Secretários limitam-se ao reporte aos Administradores e estes levam ao conhecimento no âmbito do Conselho de Gestão, onde é decidido tudo o consequente, seja a sinalização da necessidade à DGAJ/IGFJ e a veiculação ao CSM/CSMP.
Insisto, os secretários têm competência limitada nesta matéria.
Mas concordo consigo que poderiam fazer muito mais - vou dar um exemplo: numa comarca do Norte, o orçamento do Tribunal em vários anos contemplou uma verba para obras (as tais pinturas interiores) que nunca foi usada em lado algum apenas por inércia e incompetência, aliás houve alguns funcionários que pintaram as instalações e até os Gabinetes de Magistrados pagando a tinta e materiais do seu bolso.
Embora deva referir que o desbloqueio da verba orçamentada carece sempre de autorização central - isto é fácil de perceber para quem percebe de procedimentos aquisitivos e gestão de orçamentos públicos. 
Também concordo que há muita gente incompetente - há situações em que os apoios das sanitas não são substituídos, os fechos das portas não são reparados, as lâmpadas (que têm ciclos de vida) não são substituídas, e em muitos dos casos apenas porque não sabem gerir orçamentos e fazer planos de gestão - as coisas deterioram-se com o seu uso e ao perceber-se isto deveria perceber-se também qual o ciclo de vida e programar os procedimentos aquisitivos atempadamente.
Porque é que olhamos para edifícios e vemos as persianas caídas e avariadas - apenas porque não há competência em quem decide ou tem o poder de decidir!
Resumindo: na nossa classe premeia-se a antiguidade e não a competência e depois dá no que dá ... e temos o que temos.

De oficialdejustica a 14.01.2026 às 10:54

Reitera-se integralmente o alegado, salvaguardando, obviamente, a existência de locais onde os Oficiais de Justiça não assumam plenamente os cargos que ocupam e queiram sempre a bênção de outros, tal como nos processos abriam conclusões por tudo e por nada.

De a 14.01.2026 às 13:13

10,54: 
Nāo se tem visto realmente que a entidade responsável seja  mesmo a responsabilizada e se assim fosse, pensariam melhor alguns, antes de aceder aos  lugares.
Pequenas coisas que possam faltar, pequenas reparações que deixam de mandar fazer, significa incúria, desmazelo, degradação ao nível da conservação do local onde muitos trabalham e se devem sentir bem.
Mas esses responsáveis locais têm de ser inspecionados também e não é pelo trabalho que fizeram nos processos mas sim pelo  outro, o de gestāo conveniente e com bom senso dos meios humanos,  o de zelar pelas suas  boas condições de higiene e segurança no trabalho, o que inclui instalações.
Ao querer a benção de outros significa que nāo sabem, nāo têm autonomia, não se prepararam para o lugar.
Tal como os colegas das conclusões em barda para o Magistrado, porque é rápido, fácil, não obriga a estudar, a saber e  ainda pensam que assim trabalham muito mais que os demais.🐒

De Anónimo a 14.01.2026 às 10:17

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