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Terça-feira, 21.06.22

O Caso Rufo

      O jornal “Nascer do Sol” (e outros) publicou ontem um artigo intitulado “A incrível história do Dr. Rufo” e, em subtítulo dizia assim: «Exerce advocacia há quase três décadas, mas para obter a licenciatura teve de forjar documentos da Faculdade de Direito de Coimbra.»

      Há muitos Oficiais de Justiça, especialmente na zona norte e mais concretamente na área de Braga, que dizem bem conhecer o advogado inscrito na Ordem dos Advogados, desde 1993, com escritório na cidade de Braga, aliás, bem perto do Palácio da Justiça de Braga: o Dr. Luís Rufo.

      A seguir vai reproduzido o artigo do jornal “Nascer do Sol”, a cujo artigo pode aceder através da hiperligação que encontra no final deste artigo, bem como a outras fontes que aí estão indicadas.

      «É impossível que um homem viva nestas circunstâncias sem sentir medo. Mas Luís que, durante quase trinta anos, construiu a vida fazendo-se passar por advogado e fidalgo com documentos forjados, nunca pensou ser apanhado. Enriqueceu, tem duas belas mansões, um Porche e um Mercedes e até pode ter vocação. Mas não é uma coisa nem outra. Aqui fica a incrível história do Dr. Rufo

      Luís Manuel Rodrigues Gonçalves Rufo pode até tornar-se num fantasma, já que o seu passado é uma vigarice e o futuro uma incógnita. O homem, nascido em 1955 em Viana do Castelo, exerce advocacia há quase três décadas, mas para obter a licenciatura teve de forjar documentos da Faculdade de Direito de Coimbra. O seu nome tem, porém, grande reputação em Braga, onde já foi advogado da diocese e do próprio arcebispo D. Jorge Ortiga, retirado recentemente, e ex-provedor da Irmandade de Santa Cruz, uma IPSS composta por um lar e uma creche sob a alçada do mesmo episcopado.

      Como clientes, Rufo tem também vários empresários – entre os quais Artur Martins Azevedo, fundador em 1976 da Fricon, uma sociedade especializada na produção e comercialização de equipamentos de congelação e refrigeração de Vila do Conde, com uma fortuna avaliada em milhões. Com subtilezas, Rufo conseguiu que o empresário depositasse mais confiança nele do que na prole, tendo-o tornando testamenteiro da farta herança e deixando os filhos na sua dependência.

      Com a deliberação de dar cor às suas origens, Luís Rufo apresenta-se como fidalgo, complementando a farsa com o uso de um brasão de armas abusivo. Nasceu, no entanto, em berço modesto: o seu progenitor era um simples trabalhador da antiga Sacor e, a mãe, como tantas outras mulheres neste arcaico país, passava o santo dia à volta dos tachos e panelas e a mudar os cueiros aos seis filhos que nasceram de afogadilho.

      Rufo cresceu aguardando a hora de quebrar o enguiço dos pobres. Começou por fazer um curso de hotelaria e teve o seu primeiro emprego na pousada da Caniçada, no Gerês, onde começou a angariar conhecimentos.

      Em 1985, com trinta anos feitos, Rufo, sobre o qual não se podia dizer que não fosse homem de trabalho, já mudara de ramo profissional. Entrara na EDP como um mero funcionário, mas num ápice chegara a chefe de departamento. À espera de encontrar uma vaga na coutada privilegiada dos profissionais de sucesso, é aqui que, com o aval da empresa, pula para a universidade.

      E foi nesse ano que, sem o Ensino Secundário completo, através dos então designados exames “ad hoc” que davam acesso aos adultos ao ensino superior, Rufo se candidatou à Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aqui, segundo os registos existentes, apenas completou a disciplina de História do Direito Português, que fez o milagre de se multiplicar.

      O esquema montado não carecia de grande engenho, mas necessitava de muita lata e confiança nos acasos do futuro. Rufo, utilizando o certificado da Faculdade de Direito da disciplina de História do Direito Português, rasurava o nome da cadeira colocando outra por cima. Um dos exemplos foi Direito Administrativo. O objetivo era obter equivalência a essa cadeira na Universidade Portucalense onde depois se inscrevera.

      Rufo vivia em Braga e estudava no Porto, mas foi em Ponte da Barca, no cartório de Licínio Figueiredo, que completou a falsificação. Ou tinha lá um cúmplice ou tentou a sua sorte por terras onde era um estranho.

      Tinha de haver uma explicação para a falsificação, uma vez que o Nascer do Sol tinha o documento passado naquele notário e Artur Pinto aventa outra hipótese: “Não quer dizer que essas coisas não possam acontecer. Mas, geralmente, são os funcionários que tratam deste tipo de casos. O notário só assina”.

AdvogadoLuisRufo.jpg

      Rufo, aproveitou as prerrogativas de causídico e foi ganhando estatuto amparado pela diocese de Braga, tem duas empresas com um volume de negócios razoável. Mas é gerente de uma delas que se dedica à intermediação imobiliária o que é incompatível com a profissão.

      Para quem veio do nada, e com um diploma forjado, Rufo compôs bem a sua vida: tem duas belas mansões e, para não cair na rotina, faz-se passear uns dias num Porshe, outros num Mercedes. E arrecadou uma enorme lista de títulos: ex-provedor da Irmandade de Santa Cruz, mesário da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro, presidente do Conselho Fiscal da Irmandade dos Congregados, membro fundador do Festival de Órgão de Braga e até dirige a Confraria do Vinho Verde.

      Confrontado com os factos, Rufo parece ter ouvido uma voz do outro mundo. Empalideceu, certamente. A cara e o corpo contraíram-se, não podia ser de outra maneira. As palavras saem como se as cordas vocais tivessem paralisado os graves e os agudos: “Mas, sôtora, eu tirei o curso! No primeiro ano da licenciatura, andei até na Faculdade de Coimbra e na Livre ao mesmo tempo. Depois estive na Portucalense. Tenho toda a documentação. Fiz até o estágio com o Dr. Artur Marques. Posso mandar-lhe o diploma, o certificado de habilitações, a minha cédula profissional, o meu título de estágio, tudo isso. Amanhã mesmo sôtora!”.

      Sem protocolos, vai-se ao cerne da questão. Quantas disciplinas fez em Coimbra e na Universidade Livre?

      Mas para Rufo penetrar no passado era como entrar num corredor vazio onde já não se encontram as coisas e pessoas costumeiras: “Fiz umas quatro na Faculdade de Direito e outras tantas na Livre. Mas não sei quais. Mas eu tenho isso tudo e mando-lhe”.

      Rufo reagiu ao telefonema do Nascer do SOL como se esperasse desde sempre aquele anúncio fatídico. Mas, passados uns segundos, como se o seu cérebro tivesse sido atravessado por um rápido vendaval, ligou. Pressente-se algum lodo no fundo do telefonema: “Eu estou-lhe a ligar porque ainda agora quando falamos nem tive reação. Mas olhe que até fiquei sem pinga de sangue! A vida de uma pessoa não se faz num rufo, desculpe a expressão. A vida de uma pessoa faz-se de muito trabalho, de muita canseira. Que as pessoas possam não gostar de mim, admito! Agora, estarem aqui a inventar histórias... Gostaria muito, mas muito mesmo, de saber quem foi a peça! Eu até ia a Lisboa Sôtora”.

      No dia seguinte, ao contrário do que prometera, Rufo apenas enviara por correio eletrónico o diploma da universidade Portucalense que apenas confirma a licenciatura, sem ter discriminadas as cadeiras das três faculdades que frequentara, tal como prometera. Mantendo uma eclesiástica suavidade nos modos, o falso advogado justifica-se: “Peço imensa desculpa, sôtora. Afinal, não tenho os documentos. Vou ter de pedir os certificados. Mas, na sexta-feira, sem falta, tem as coisinhas aí”.

      Esse dia chegou mas não alterou o rumo das coisas. Rufo empatava o tempo e apenas enviava uma cópia de um pedido feito à Portucalense, a universidade por ele burlada, do seu diploma completo prontificando-se a mandar os documentos mal os tivesse na sua posse.

      As fontes contactadas pelo Nascer do SOL garantem que Rufo utilizou este esquema com outras disciplinas além da de Direito Administrativo, o que não foi possível confirmar. Nos documentos da Universidade Portucalense, consta que aquele aluno teve equivalência a sete cadeiras – mas onde foram efetuadas é uma incógnita. Talvez o facto de Rufo ter frequentado a Universidade Livre, que fechou em 1986, dando depois origem à Portucalense, seja uma explicação, uma vez que os arquivos da primeira estão em paradeiro incerto.

      Miguel Matias, ex-vice-presidente do Conselho Geral da Ordem dos Advogados faz a radiografia da situação do ponto de vista jurídico: “Caso se verifique alguma desconformidade ou falta de correspondência com a verdade, poderemos estar perante a prática de um crime de usurpação de funções e de um crime de falsificação de documentos. Do ponto de vista disciplinar, verificando-se a desconformidade do título para o exercício das funções de advogado, tal poderá constituir motivo para a expulsão nos termos do Estatuto da Ordem dos Advogados.”

      Enquanto isso, por Coimbra, entre os lentes, o falso advogado até ganhou o cognome do jurista romano Rufos. Um reputado académico não consegue deixar de ironizar: “Talvez tenha sido esse quem lhe tenha dado a equivalência”. »

NotarioPonteDaBarca(CasoRufo).jpg

      Fontes (texto e imagens): “Nascer do Sol”, "Jornal de Notícias”, “O Minho” e “jornal Inevitável”.

por: GF
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às 08:01


6 comentários

De Anónimo a 21.06.2022 às 11:36



Governantes cumprem leis apenas quando lhes dá jeito a eles

canalhada sem palavra

De Anónimo a 21.06.2022 às 17:02

Ainda assim com maioria absoluta e tendo muitos funcionários de justiça rendidos aos encantos do partido. Tão rendidos que até sindicalistas se apresentaram em listas do partido. quase apetece dizer, Costa mente, tens nos oficiais de justiça a tua gente...

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